Toda forma de amor: sobre reconfigurações sociais e afetivas na vida moderna

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Numa sexta-feira passada, subi ao palco com a banda Pequeno Cabaré Boêmio Itinerante para dançar ao som de Geni, de Chico Buarque, para o público super receptivo do Bar do Haules, um espaço livre de padrões e preconceitos, aberto a todos os públicos. O show terminou com Mari, a vocalista, dedicando a apresentação à vida de todas as travestis.

Pequeno Cabaré Boêmio Itinerante é um experimento musical-cênico que traz brasilidade na irreverência do cabaré, em arranjos inusitados e com toques de humor. Os quatro músicos-personagens trazem voz, baixo, piano, bateria, percussão e sanfona em versões bossa-jazz da MPB ao tecnobrega. Entremeado por uma dramaturgia leve, tem clima de cabaré não convencional, explorando improvisações e estimulando musical e visualmente a plateia, que embarca numa atmosfera divertidamente sensual.
Resolvi começar essa postagem com essa ocasião como um grande exemplo de como a arte pode servir a um propósito e facilmente tornar-se um manifesto. Não é à toa que nós, artistas, nos expomos: estamos nos manifestando, expressando nossos ideais. É por isso que eu escrevo, e é por isso que eu danço, é por isso que entrei para o curso de jornalismo: para aprender a usar as mídias digitais como uma ferramenta.

Não me mande flores… ?

Particularmente, estou de acordo com a visão da psicanalista Regina Navarro Lins quando esta diz que o amor romântico é uma construção social, uma ilusão. Em tempos onde feminismo é pauta, cavalheirismo é interpretado como uma forma de machismo; conforme o tom da mensagem, é sexismo; opressão e liberdade colidem; debates sobre vulgaridade e exposição ganham espaço; a vítima continua sendo a culpada; nu artístico, erótico e pornográfico perdem a distinção; os seios femininos acabam comparados às genitais masculinas – oi? É preciso rever conceitos antes de sairmos opinando por aí. Deixar de impor nossos valores a outrem.

Talvez, para você, manter a casa limpa seja um valor de caráter, mas para o outra não. Talvez, para você, se depilar é questão de higiene, para a outra não. Talvez você ache romântico o homem pagar a conta, a outra não. Talvez você não tenha vontade de trabalhar fora, aprender a dirigir, mas outras tem. Para a outra, talvez, a casa que se dane, ela prefere gastar seu dinheiro com outra coisa além de salão de beleza, ela gosta de sentir autonomia suficiente para ir e vir quando quiser. O ponto que quero abordar aqui é: não existe certo e errado – se ambos estão de acordo, se existe respeito acima de tudo, então ok. Vamos parar de opinar na vida alheia?

A guerra dos sexos

Com as reconfigurações sociais e afetivas, do relacionamento aberto ao poliamor; com o avanço da ciência possibilitando a maternidade a casais lésbicas, mães solteiras, mulheres maduras; permitindo a identidade de gênero; falar de sexo já deveria ter deixado de ser tabu, pelo menos para quem está disposto a explorar mais sua sexualidade enquanto ainda é possível aproveitá-la – em vida! Porque agora, com as inovações da indústria farmacêutica, a atividade sexual não precisa ser interrompida.

Com a descoberta da pílula anticoncepcional, o sexo se dissociou da procriação, podendo se aliar ao prazer. Todavia, ainda contamos com muita inibições, censuras e tabus. Ao invés de educar, as mulheres foram desaprendendo de geração a geração e hoje muitas desconhecem a própria sexualidade, e tem medo de explorar. O fato é que, sem os imperativos sociais, econômicos e religiosos que pesavam a favor da duração do casamento, relacionamentos nada convencionais se tornam uma opção para pessoas de diferentes estilos de vida – esse fator independe de faixa etária e classe social, por exemplo.

Com um leque de opções sexuais à nossa disposição, creio que em breve não precisaremos mais de rótulos. Não tem mais essa de “coisa de menina” e “coisa de menino”. Nos tempos de hoje, machismo, femismo e homofobia não tem mais vez. A nova geração recebe a missão de desconstruir conceitos e padrões impostos por uma sociedade hipócrita e ortodoxa.

Quando resolvi viver minha sexualidade, a questão do gênero veio como brinde. O gênero é vivido de muitas formas.” Laerte

O seu prazer em primeiro lugar

Estou promovendo encontros de danças femininas na escola onde ministro aulas, e o último encontro teve como tema artes sensuais. Fiquei emocionada com a diversidade das participantes, mulheres solteiras, viúvas, divorciadas, em relacionamento aberto ou estável, todas procurando aprender mais sobre si mesmas e explorar possibilidades de redescobertas pessoais – uma verdadeira vivência, jornada pessoal. E, apesar do encontro ter atraído muitas mulheres com o desejo de se realizar com um parceiro, o workshop foi todo voltado para a nossa individualidade.

Obs. Resolvi encerrar com este termo, ‘mulheres que dançam’, afinal, tanto neste encontro como o anterior, a presença de homens interessados em conhecer e aprender sobre o sagrado feminino era mais do que bem-vinda.

Se não for consensual, não tem a menor chance de ser sensual.” Kipper

Em conclusão

Não tem coisa melhor que assumir as suas fragilidades, reconhecer os pontos fracos, se deixar ser pega desprevenida. Para muitos, num relacionamento monogâmico, parafraseando Mallu Magalhães, “a rotina nos consome”, o tédio cresce, vira monotonia. Quanto mais cedemos em favor do outro, mais nos anulamos, guardamos mágoa, rancor, alimentamos um bicho interior – e uma hora ele precisa sair.

A psicanalista Regina Navarro Lins descreve a separação como um processo lento, na maior parte das vezes de forma inconsciente: “A relação vai se desgastando e a vida cotidiana do casal deixa de proporcionar prazer. Aos poucos, o desencanto se instala”. Através de brigas, traições, ou apenas pela frieza, ignorando o problema como se ele fosse sumir, quando na verdade o problema só cresce diante dos seus olhos, até você ter um elefante branco na sala. Mas não precisa ser assim.

Como é libertador expor nossos pensamentos e sentimentos sem medo de julgamentos! Entrar num consenso e reconhecer que ninguém é dono de ninguém. Deixar os rótulos para os pesquisadores, e apenas viver, toda forma de amor, toda forma de prazer. Permitir-se! Cada vez mais surgem espaços alternativos abrindo suas portas para vivências do sagrado feminino, grupos de estudos sobre sexualidade e gênero com professores e psicólogos pesquisadores na área. Aos poucos, a pauta vira manchete, e veremos estes debates ganharem espaço através da imprensa, órgãos públicos e pela educação básica. É o que se espera, caminhamos para isso, e juntas somos mais fortes.

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