Por um ensino-aprendizagem tribal na formação em Dança

Atualmente, temos escolas de dança e autônomos em todo o país oferecendo cursos livres, workshops e cursos de formação continuada em dança, mas você já se perguntou sobre a formação necessária para exercer essas atividades? A lei que regulamenta as profissões de Artista e de Técnico em Espetáculo e Diversões (Lei 6.533/1978) diz que para atuar como profissional em TV, cinema, teatro, publicidade, show de variedades e dublagem é necessário ter o registro profissional emitido por uma Delegacia Regional do Trabalho, o chamado “DRT”; todavia, a lei não versa sobre professores, porque para se qualificar como professor em qualquer que seja a área, é necessário ser licenciado para tal. Entretanto, como a dança não possui um conselho regulador próprio, qualquer indivíduo está habilitado a ministrar aulas de Dança, ainda que não esteja qualificado legalmente para tal.

Dada a natureza destes cursos livres, se comparados aos populares “cursos profissionalizantes”, tais estudos devem ser encarados com a função de aperfeiçoamento pessoal e/ou um meio para algo maior. Para atuar como professor, bailarino, coreógrafo e/ou produtor profissional, o ideal é buscar uma formação em nível técnico ou superior na área de sua preferência – Dança, Educação Física, Teatro, Eventos, Produção Cultural, Artes: as possibilidades são muitas! Para Joline Andrade (Salvador, Bahia, Brasil), licenciada em Dança, formada no Curso de Dançarino Profissional e pós-graduada em Estudos Contemporâneos sobre Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), a formação superior promove uma maturidade no pensar/fazer do profissional que se debruça em estudos de estética e história da arte, estudos do corpo e processos criativos, corroborando numa ótica crítica para as práticas atuais, especialmente no mercado da dança.

Ainda segundo a Joline, é de extrema importância que profissionais de dança portem um diploma de graduação e/ou pós-graduação especificamente na área da dança, não somente pela exigência em algumas instituições de ensino, mas pela capacidade de análise, reflexão e questionamento que esta experiência pode trazer ao indivíduo: “Minha experiência acadêmica foi fundamental na construção da minha prática artística. Pude desenvolver um pensamento fora do padrão na dança tribal e isso me fez alcançar lugares que talvez eu não alcançasse se não me relacionasse com a linguagem de maneira mais complexa”. Todavia, o aspirante a dançarino e professor profissional pode encontrar outras dificuldades para a exercer a profissão, como veremos a seguir.

Para aprender Dança Tribal

É de comum acordo entre diversos profissionais de dança no Brasil que para aprender Dança Tribal não é necessário ter “formação” em Dança do Ventre, assim como não é necessário certificação em American Tribal Style® ou qualquer outro formato comercializado  – entende-se aqui por vocabulário de dança e abordagem técnica para coreografia ou improvisação – visto que trata-se de estilos distintos entre si. Sendo assim, o que forma um professor de Dança Tribal? É preciso haver um cuidado ético na apropriação de movimentos e criação de métodos ao fazer exigências nos estudos de dançarinos e alunos.

Carolena Nericcio é creditada pela sistematização do American Tribal Style® juntamente com seu grupo, FatChance BellyDance®, estilo que ganhou popularidade e seguidores mundialmente, inspirando diversas entusiastas a criarem um leque de possibilidades dentro da Dança Tribal, o que levou Carolena a registrá-lo como um formato para que não perdesse sua essência – você pode saber mais sobre os primórdios do ATS® nesta entrevista com a Carolena, realizada por Rebeca Piñeiro e publicada em 2012 na revista Shimmie.

A dança conhecida como Tribal Fusion recebeu esta nomenclatura na década de 90, referenciando-se ao ATS®, mas o estilo sempre fez parte de um processo em evolução, passou por muitas modificações ao longo dos anos e permanece em transformação, levando as profissionais de Dança a terem a necessidade de estudá-lo e enquadrá-lo numa categoria, ocasionando, principalmente, em discussões sobre a nomenclatura apropriada e criando, desta forma, a divergência de opiniões entre artistas do meio.

Atualmente, a Dança Tribal é conhecida no Brasil como uma dança de “fusão” étnica e contemporânea que, tendo como referência a Dança do Ventre, mescla conceitos de danças de culturas diversas, tais como a cultura árabe, espanhola, indiana e norte-americana. Profissionais do estilo dividem suas criações entre as com perspectivas tradicionalistas, mantendo uma estética fundamentada no ATS®; e as com perspectivas contemporâneas, aderindo a novos códigos a partir de pesquisas de movimento por experimentação combinatória, possibilitando uma gama de vertentes e hibridações.

Em resumo, para identificar um estilo como Tribal é necessário haver uma combinação de suas matrizes e referências, mas a maneira de desenvolver essa “fusão” é bem particular e individualista. Não existe um padrão a ser seguido, existem formas diferentes de pensar a dança onde cada um desenvolve as suas regras de composição, assim como cada professor tem a sua metodologia. Você pode escolher um professor de Dança Tribal pelo seu histórico, mas ainda assim é importante estudar as diferentes danças que o estilo engloba diretamente com profissionais especializados em cada linguagem – danças urbanas, folclóricas, populares e acadêmicas como Flamenco, Dança Cigana, Dança do Ventre, Dança Contemporânea, além de yoga e inúmeras outras possibilidades!

 A dança como área de conhecimento

O boletim Arte na Escola número 58, publicado em 2010, apresentou matérias e entrevistas relevantes sobre o lugar da Dança na escola, a necessidade de formação específica para professores que ensinam Dança e o ensino da Dança no ambiente acadêmico, conforme os parâmetros curriculares nacionais. Somente em 2016 o Senado aprovou a inclusão obrigatória de conteúdos de Dança, Artes Visuais, Música e Teatro no ensino básico brasileiro, tanto para escolas públicas quanto particulares, pela Lei 13.278/2016, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB — Lei 9.394/1996), prevendo o prazo de cinco anos (até 2021) para os sistemas de ensino implantarem as mudanças propostas pelo projeto nos cursos pedagógicos.

Embora a Dança venha ganhando valor, principalmente nas escolas de educação integral e na abertura de cursos de licenciatura específicos, ainda há poucos professores formados em Dança. Não há estatísticas oficiais sobre o número de professores de Dança, mas há no Brasil hoje cerca de 25 cursos de graduação e licenciatura em Dança, 15 deles públicos. Por este motivo, no Brasil, os profissionais de Dança optam prioritariamente pela formação em Educação Física e/ou Educação Artística, onde a linguagem se apresenta sob o título de Artes Cênicas, juntamente com o Teatro. Todavia, fica a questão: a disciplina de Dança e sua carga-horária nos respectivos cursos superiores de Arte e Educação Física são suficientes para formar professores com condições de ensinar a linguagem da Dança?

Nas escolas há também o dilema no ensino da Dança dentro das disciplinas citadas: em Educação Artística, a linguagem divide espaço com Artes Visuais, Música e Teatro; em Educação Física, ocorre as práticas esportivas, como futebol, ginástica e lutas, em detrimento de expressões como a Dança. Como resultado dessa negligência, a Dança aparece na escola somente em festas folclóricas e nas datas comemorativas, perdurando o preconceito na tradição cultural: da Dança como apêndice, vista como “coisa de menina” e resumida em”balé clássico”. Como valorizar esta formação mais ampla da corporeidade do aluno? Para equacionar esses problemas, torcemos pelo aumento da oferta de cursos superiores de Dança e pela criação da Dança enquanto disciplina no ambiente acadêmico.

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