Dança e Tecnologia

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Se olharmos para o cinema, a música e até para a escultura perceberemos que as manifestações híbridas que fusionam arte e tecnologia não são tão recentes quanto pensamos. A tecnologia permeia a vida das pessoas, não estando ausente no meio artístico, principalmente quando se trata de arte contemporânea, que é diretamente influenciada por seu tempo. Diante dos sucessivos avanços tecnológicos, a disponibilidade de ferramentas como filmadoras, computadores e fácil acesso a internet possibilitaram uma maior utilização desses artefatos nos processos de composição coreográfica.

Perceber como a dança – assim como inúmeros outros fenômenos artísticos – dialoga com as novas tecnologias possibilita observar modificações não só na arte, como também nas fronteiras que se estabelecem entre ser humano e máquina.*

A intervenção da tecnologia em suas mais diversas funções nas produções em dança é uma forte tendência onde o corpo que dança estabelece relações com a tecnologia, como é o caso da videodança e da dança telemática. Alguns pesquisadores tratam do tema da tecnologia como mediação, como é o caso de Ivani Santana em seu livro “Dança e Cultura Digital”, outros abordam de forma terminológica e classificatória, como fez Maíra Spanghero em “A dança dos encéfalos acesos”. O caso é que, após algumas experiências com intervenções tecnológicas, o artefato deixou de ser apenas um meio utilitário e passou a ser apropriado pelo artista como parte de sua obras, seja pelo uso da materialidade (objetos cênicos, estéticos, técnicos), seja pela relação entre as partes de forma simétrica, ou seja: a intervenção da tecnologia na dança passou do uso utilitário para o uso estético.

A tecnologia tomou forma como corpo integrante do processo criativo, onde homem, máquina e objeto são atores da mesma rede que trama o fazer artístico, de maneira simétrica.*

Na história da dança, a cenografia se destaca como tecnologia de palco. Ao alterar a atmosfera no ambiente do palco permite-se intensificar a imersão do público na peça. O uso de iluminação, cenário e figurino podem modificar a percepção do público em relação ao que está sendo apresentado.
O grupo Beats Antique em sua turnê “A Thousand Faces” com a tribaldancer Zoe Jakes fizeram uso de cenografia artística com intervenção tecnológica de iluminação e vídeo, criando um jogo de luz e sombra que causou um efeito de ótica dinâmico e interativo.

Linha do Tempo

Muito antes da chegada da cultura digital, já havia intervenções técnicas no fazer artístico. Uma prova disso é o teatro grego que contava com efeitos de iluminação e mecanismos de palco para intensificar a experiência da arte cênica. Segundo Spanghero, as relações entre dança e tecnologia podem ser datadas a partir do começo da década de 1960, período no qual os primeiros softwares para notação do movimento foram desenvolvidos.
  • Na peça “Le Sylphides” de ballet clássico produzido no final de XVIII pelo coreógrafo Charles Didelot, as sapatilhas de ponta das bailarinas e os mecanismos de suspensão utilizados na cenografia proporcionaram um efeito único de leveza e flutuação.
  • Loïe Fuller se destacou na Dança Moderna ao utilizar túnicas como figurinos, que flutuavam pelo espaço, combinados aos efeitos de iluminação, produzindo a ilusão de que a bailarina podia aparecer e desaparecer do palco. Foi a primeira vez que a iluminação se apresentou como parte integrante da composição artística, não apenas como um artefato para clarear o ambiente.
  • Em 1930, o engenheiro Leon Theremin criou um ambiente interativo que respondia aos movimentos humanos, transformando-os em música. A plataforma, chamada “Terpistone”, foi considerada a primeira dança com mediação de tecnologia eletrônica.
  • Em meados do século passado, Merce Cunningham, coreógrafo de destaque da dança moderna internacional, um dos pais da videodança, também foi precursor da interatividade homem-máquina na dança: em sua criação “Variations V” (1965) os dançarinos movimentavam-se entre células fotoelétricas que emitiam sinais ao console dos músicos (John Cage e David Tudor), por onde os sons eram gerados.
  • Em 1992, Wayne McGregor criou uma plataforma virtual onde utiliza movimentos digitais e imagens de vídeo distorcidas, apresentadas ao vivo, para estimular seu grupo de dançarinos a iniciar uma composição através da técnica de improvisação.
Performance teatral “Cirque-worthy” por Mira Betz em The Massive Spectacular! 2015
 

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